rir das coisas que nos fazem sofrer
e um bom caminho
para que essas mesmas coisas
deixem de nos fazer sofrer
já que não dá pra ser indiferente a isso
é melhor rir disso
do que chorar por isso
Hoje tomo café para não dormir. Para poder fazer tudo que é preciso ser feito em um dia. Mas ainda prefiro os dias de correria, os dias atarefados aos dias livres e tediosos. Quero trabalhos para me ocuparem. Procuro projetos para realizar. Quando o ano terminada, quero olhar para trás e pensar que foi produtivo, que foi construtivo, que vivi, que fiz, que aprendi, que conheci.
Pode parecer metafísica a ideia de uma ligação tão intrínseca entre alma e corpo, mas ela é apenas física. Sabemos e aceitamos que um corpo doente deixa abatida a alma, mas temos dificuldades de entender como uma alma abatida pode adoecer um corpo. Minha avozinha está livre agora, livre de um corpo doente e limitado. É triste porque era por meio desse corpo que ela podia falar-me, foi esse corpo que me abraçou tantas vezes longamente em quase todos os meus vinte e cinco aniversários, e em todos os meus vinte e cinco natais, corpo que eu beijava sempre que chegava e sempre que partia. Essas demonstrações de afeto, verdadeiras comunicações, formas de mostrar como nosso vínculo afetivo nos fazia amarmos-nos reciprocamente, não podem mais. Fica a pergunta sobre se o fizemos o suficiente. Pergunta cruel. Resta-me apenas a consciência de que devo demonstrar todo meu amor e meu afeto pelas pessoas que estão. Abracei-me longamente com minha mãe, minha madrina e minhas tias. Que mais posso eu fazer? Dentro de meus limites, tentei manter cheia de café a garrafa térmica. Olhos vermelhos em torno da mesa, xícaras cheias de líquido preto do qual sobe um tênue e transparente vapor branco, como se fosse a metáfora do calor que perde um corpo enquanto uma alma ascende.